quarta-feira, abril 11, 2018

EM CONTRAMÃO, TALVEZ SE ACERTEM RUMOS


Reagir, saber reagir, insurgir-se, em regra são, quiçá, atitudes não só dignas como socialmente higiénicas. Sobretudo, em face de silêncios entorpecentes, e insistentes, provindos de arranjos assentes em lugares e circunstâncias de assimétricos poderes. A medrosa mudez aqui indiciada torna-se, destarte, oportuna condição de ainda mais domínio, guarnecido, como é conveniente, de conspícua e ufana superioridade. A distância afinal, por muitos desde sempre namorada, assim se estabelece, certamente se instaura, e a arbitrariedade com social desembaraço se metaboliza em obstinado abuso. Costumeiramente mediante expedientes que se vão simbolizando sob formas matreiras e sortidas de pedantices ideológicas, em permanente aclimatação da sua aburguesada base algorítmica. Ou seja, uma base, tipo excipiente, onde se faz germinar, e daí medrar, a tão propalada e enjeitada manipulação.

domingo, abril 01, 2018

OS BALDIOS DA NATURALIDADE


O “à toa” tornado natural, amiúde se inebria na nascente das abstrações. Despreza, ou mesmo humilha, descuidada, a condição terrena do seu álveo concreto. Daí, se desponta um sortido de duvidosos supostos, aforismos decerto humanos e ocultados em augustos princípios. De propósito, ou não, estes calam sempre a sua nudez, diga-se ingénua, da sua mancebia lógica. Neste incauto e preguiçoso entrelaçar, quiçá assustado, tal nexo faz das suas. As relações e os vínculos, por isso, e nessas circunstâncias, detalham aparências onde o singular se mostra alegremente dispensado das suas pertenças e determinações. A partir daí, move-se a incessante e genérica moldura de um esboço alegórico com as saloias pretensões de se incutir em decisiva representatividade. A compreensão das coisas, desde então, ufana e atoleimada, difunde-se através das suas sonambúlicas derivas. Porém, num descampado onde o precioso sentido do transformável se desorienta ou, pior ainda, de todo se perde. Mesmo quando sós, bem reconhecemos que jamais caminhamos sozinhos. Melhor, e talvez com mais acerto, diria que é bom e conveniente lembrar que a humanidade é aquele vital e útil “terreiro do não-eu” onde o eu se situa e vive e aí se projeta e singulariza. Em consciência, onde o singular, o dito individual, se solidariza (ou não) com o Outro no transformável mundo que importa. Com (ou sem) esperas celestiais ou transcursos homólogos. O natural é (ou pode ser), de certo modo, um descuidado impensado que espera (ou desespera) mais de nós e das nossas humanas faculdades.

sexta-feira, março 23, 2018

O INFERNO ESTÁ NOS OUTROS, EIS A CERTEZA DO NOSSO FUTEBOL


O futebol e seus abarcantes, pouco a pouco, cada vez mais, consomem (e consomem-se de) uma prática viciada e viciante. Animada por interesses e valores bem diferentes, e diferenciados, nesta trama todos são cúmplices e, paradoxalmente, de igual modo coniventes. Afigura-se, assim, uma realidade de obscura obediência, supostamente a uma intrusiva teologia à volta da bola e das suas piruetas. Brotada esta, quiçá, por uma vulgata versio que a todos desobriga do sacramento da razão. Da religião assim emergente enxerga-se, certamente, um qualquer cabalístico deus fanático, que se revela em espírito aos seus santos caudilhos. Daí, aos diletos intérpretes destes impende o posterior e divino apostolado do urgente refinamento dos seus crentes. Adquirida a vital e acossada , condição precípua de acolhimento e pertença, o desprotegido entendimento, agora sobrante, apenas alcança a evidência do dogma que assim se tonifica. Deste jeito, o fanatismo religioso em modo clubístico talvez baste. Desde de que a decência da virgindade original se invente diluído na trama religiosa da semelhança. Tarefa a que alguns intelectuais da nossa praça se dedicam com genialidade, pedantismo e … patético patetar servilheteiro.

quinta-feira, março 22, 2018

EVOCANDO O AMIGO CARLOS MEDEIROS

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INSOMNIA
(«A voz humana», Jean Cocteau-Teatro Nacional São João)

Poderia ser uma imagem do que antecede ou se segue ao telefonema que uma mulher faz ao amante que a abandona, … aproximando-nos antes dos anos 1930 e 1940, a época em que o monólogo de Cocteau se estreou e conheceu, primeiro, o escândalo e, depois, uma invulgar fortuna. Inspirada no imaginário do film noir, utilizando sombras dramáticas e alto contraste, INSOMNIA oferece uma narrativa densa, sem desfecho.

(retirado de http://www.carlosmedeiros.com/)

quarta-feira, março 21, 2018

OS MEDIA, UMA FONTE TÁCITA DO POPULISMO?


No seu livro O QUE É O POPULISMO?, Dani Rodrik diz-nos que Fukuyama, ao prenunciar “O Fim da História”, não reclamaria sustentar o fim de todas as hostilidades. Talvez afiançasse, isso sim, que a democracia liberal (associado ao capitalismo de mercado) não teria no futuro, e no plano das ideias, eficazes concorrentes. Para tal, como justificativas, convoca a assombração do “islamofascismo”, avoca o “modelo chinês de capitalismo” e, sobretudo, desperta para o perigo crescente fenómeno do populismo. Dani Rodrik contraria, com tais fenómenos, o altaneiro convencimento de Fukuyama. Acima de tudo, e isso particularmente me interessa, manifesta que tal perigo possa vir do próprio interior do mundo democrático, hoje reconhecidamente rebaixado.

Este último lampejo, o do populismo que daninha enraizado no modelo democrático, é aquele que, por isso, aqui importa permanecer e, a ele recorrendo, espiar culpabilidades que os media têm vindo a gerar no adensar da epidemia desta doença politicamente traiçoeira. Entre o que o cidadão necessita de saber (exigência política) e o que interessa ao consumidor (conveniência de mercado), solta-se a substância de um intervalo que se impõe assim como matéria de indagação. Não perdendo tempo, por evidente serventia ao intuito de despudorada despolitização, com um tipo de mediação/mediatização afeito às alcoviteirices sociais, às indecorosidades sexuais e aos crimes e escândalos que compungem, sem interrupção avanço, de um modo esquemático, para a sinopse que importa.

Historicamente, julgo ser consensual que o jornalismo serviu provadamente o instituir da Democracia, designadamente da democracia representativa. Hoje, o dito Mercado, através de um todo poderoso industrial e empresarial no campo da informação, tem vindo a distorcer a qualidade dessa irmanada e alicerçadora convivência memoriosa. Como prólogo aos tópicos que a seguir na sinopse se considera, vale a pena caracterizar, em jeito breve (e decerto caricatural), o que significa (e alcança) esta, hoje, original máquina social do mediar imediato da informação. Ela (esta máquina) encaminha, através de acertados filtros, os nossos olhares a espreitarem e a descodificarem uma certa, aliás particular, e (correntemente) imperfeita realidade. Ela (esta máquina) doutrina mais do que informa, propagando astutamente discursividades fragmentárias e favoráveis ao talhado arranjo da nossa perceção política e ideológica. Ela (esta máquina), e de um modo larvar, impinge um saber superficial, alicerçado em decididos factos e opiniões, que adiante move e moverá úteis juízos de valor pragmaticamente convenientes, convertendo assim tal engenho num eixo axial do andamento democrático.

Tendo presente que o poder desta maquinaria informativa, em síntese, opera em dois relevantes domínios, ou seja; (1) no da descodificação e interpretação dos factos e, como tal, nas implícitas sugestões veiculadas no campo das análises e leituras politico-ideológicas e (2) no dos sistemas de representação estruturados quanto à compreensão da realidade, com o consequente impacto no campo da crítica social e política, aqui deixo para inquérito o seguinte e premente enredo; até que ponto este ordenado poder, que entre nós e a realidade, opera, se faz (ou não) hoje um mastodôntico território simbólico, que nos vem afiliando (ou não) ao teatral divórcio ante a materialidade objetiva da nossa concreta experiência de vida, dos nossos interesses reais, recolocando no lugar destes alienantes considerandos embelezados pela lógica consertada e domesticadora demarcada pelas conveniências dos respetivos mercados? Na minha modesta opinião, a somática colagem dos media aos interesses vantajosos destes últimos proveitos, tem vindo, creio eu, a instigar o incremento da insurgência antissistema e, como tal, a tornar-se numa silenciosa e pérfida parceria, fonte significante deste generalizado, mas perverso populismo crescente. Estarei eu a ser descomedido nesta alarmante, embora pessoal inquietação?

domingo, março 18, 2018

ONDE A RAZÃO ADORMECE, OS BARREIRAS DUARTES RESFOLGAM


O exercício político, numa sociedade democrática, não é nem pode ser interditado a qualquer cidadão que o queira exercer. Pois, simplesmente tal exercício não exige uma qualquer e determinada qualificação. O culturalmente inquietante é quando parece aceitar-se a surda oficialização desta opaca exigência. Ainda assim, mais sério é quando, não sendo forçosa a qualificação, se recorre à fraude, fazendo-se valer de créditos que não se porta. O inquietante situa-se no plano da discriminação - inaceitável. A fraude no domínio da ética - condenável. Logo, é este segundo, o da intrujice, que importa instituir como instância excludente. O político que dela se serve, não serve. Ponto final.

domingo, março 04, 2018

O AGITADO ACERVO DO INCERTO

Com mais ou menos distância, curiosos espiamos o pequeno mundo à nossa volta. Amiúde, a corrente e irreprimível opinião advém daí fria, desproporcionada ou tontamente comprometida. O ponto de vista raramente se forja no sofrido silêncio das meditações do pensar. De um modo fácil e ligeiro assim apressamos a crendice que supostamente a advoga e confirma. Com a avidez de entrar em cena, o falar não ajuda. Pelo contrário, pois à exigência do pensar, priva-se o seu merecido tempo. A repentina produção bruta, deste jeito, cegamente aliena o desafio da paradoxal urgência do seu acabamento. Sendo o pensar uma prática solitária, aparentemente silenciosos, os outros estão aí sempre presentes. Estimulando as nossas hesitações e agitando as nossas certezas. Com a pressa de a estas chegar, com igual ligeireza enjeitamos a fecundidade do incerto. Nesta longa e humana viagem, feita de concordâncias e discordâncias, as incertezas cumprem a sua serventia. O seu potencial valor de assim fazer progredir o pensado que, afinal de contas, interessa escutar e partilhar. Sem qualquer banimento de percursos que dessa viagem são parte, das simples caminhadas às extensas rotas. O agir humano e social desta clarividência carece. Não obstante, sem oníricos e inférteis idealismos.

domingo, fevereiro 18, 2018

SIM, ATÉ JÁ

Os escritos estilhaçados que aqui trago e arrumo são, como expressamente acautelo, meros apontamentos de circunstância feitos de triviais notas que restam da vida. Nem sempre o ânimo colabora nesta arte de juntar palavras capazes de fazer cabriolar os desabafos calcados pelo sucessivo descuido e fraqueza. Para mais, não é fácil escapar ao lampejo dos códigos, despegando os rostos das circunstâncias, assim como os seus rastos do ramerrame dos dias. Mais do que as palavras, interessa-me a escrita da liberdade, malgrado a história e o peso das próprias palavras. Não tem sido fácil. Daí, até breve.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

LIAMES DA AMIZADE

Sem dúvida, ter-se amigos abrilhanta sociabilidades. Mas se à amizade se soma o companheirismo, sente-se a distância das afeições. Um amigo, a sê-lo, em princípio é sempre um amigo. Um amigo companheiro é, no entanto, não apenas mais um amigo, mas sim um amigo-mais. Um amigo que, mesmo não palmilhando os mesmos caminhos, se entrega às nossas sortes, às nossas angústias e adversidades e, aquando dos nossos despertares, com a sua lídima vizindade engrandece o nosso entusiasmo. Em síntese, um amigo companheiro que abertamente abraça por completo o sentimento de partilha, sabendo ler pacientemente as nossas sílabas, bem como captar a voz dos nossos silêncios. Um companheirismo, no fundo, que nos oferece, tão-só, uma singular amizade, se bem que uma amizade vivida simplesmente por inteiro.

domingo, fevereiro 04, 2018

JANEIRO JÁ SE FOI. REGRESSOU O BAR DA PRAIA (BALEAL)

IMG_20180204_115040Eis um LUGAR do meu dia-a-dia onde o quotidiano das leituras me reinventa e as artes de pensar me surpreendem. Sinto até, por vezes, uma inefável intimidade que me oferece uma outra imagem de mim próprio. A geometria do seu espaço, o carisma circundante e o calor humano das suas gentes, embelezam em eufonia esse LUGAR existencial, por mim privado sem ajustada moderação. Acompanhado na minha solitária particularidade, o BAR DA PRAIA já não é, há muito, um mero não-lugar, ponto de passagem, provisório e incerto. Fez-se, ao longo destes últimos anos, um LUGAR inevitável. No seu singular espaço vai acontecendo um acrescer de jogos reflexivos que me completam, me despertam e me entusiasmam. Rodeado, porém, do préstimo magnânimo dos livros que, comigo, conversam. Tempos já tardios, sim, mas tempos sobremodo prazenteiros que experimento darem-se neste LUGAR do BAR DA PRAIA.

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

FAZENDO OU NÃO FAZENDO, SOMOS RESPONSÁVEIS


Com uma clara ou imprecisa consciência, desafiados pela forma como concebemos o mundo, todos somos explicados por crenças, convicções, valores e princípios. Dessa construção, quiçá ideológica, emanam as inquietações do homem e do cidadão concreto. A dimensão ética revela-se, em consequência, nas suas predisposições e orientação na presença do Real. Deste cenário não escapamos, arrumando urgências em torno das nossas vitais preocupações, humanas e sociais. A escrita, mesmo em modo de desabafos, como é o caso, não se livra desta disposição. Neste tempo de fortes desigualdades, o acordo da Liberdade com a responsabilidade de interceder em favor da Dignidade da nossa humana condição, para onde nos inclina, afinal de contas, a Ética? O que proclamar? Por mim, opto pelas inquietantes questões da Justiça e das injustiças. Contudo, sem alienar a Liberdade, mesmo que mediada pela própria liberdade.

sexta-feira, janeiro 26, 2018

LUGARES DE SINGULARIDADE


23416968_191901008041952_6990950217960914944_nO exílio, do sinistro degredo ao sóbrio isolamento, encaminha o homem para lugares, por certos desiguais, de imprecisos sentimentos de perda e ausência. Sobretudo, e em comum, de perdas que magoam a dignidade e confundem a identidade humanas. Daí se faz um cabouco que não acautela um humano assento aos alicerces da basilar e íntegra singularidade. A diferença inquieta, eis o silenciado fundamento, aliás  sempre presente, na mudez da exclusão. Em particular, porque incomoda e desfigura as abstrações e as racionalizações das almas sossegadas. Os zeladores da ortodoxia cultural e da sintaxe social cumprem aqui o seu papel. O impulso intrusivo à absorção, mediante o constrangimento à semelhança, de imediato é assim suscitado. Em consequência, as condições da verdade movem-se e ajustam-se. Da lógica da razão, solta-se então o furor desajuizado do reprimido. Na fé de que a dobra das vidas e das experiências consertem as expectativas e agasalhem o imperturbado futuro. Contudo, o exilado ao (sobre)viver, caminha por muitos e outros lugares e não-lugares, entre si miscigenados, certamente, em um lugar-outro. Rasgando, assim, novas fronteiras, alargando as suas experiências e, arrastado pelo desconforto, adentrando-se por outros horizontes, perspetivas e sensibilidades. Os danos, afinal de contas, nos seus efeitos, aos sentimentos de perdas, apensam e transladam outros possíveis alcances. Na busca de diferentes sentires e presenças que iluminem a própria dignidade e avivem, em síntese, o substancial da singularidade que dela, da dignidade, tem obrigação de cuidar. O necessário e o útil, nem sempre comunicam através da invenção da semelhança. Diria mesmo, raramente se entendem.

domingo, janeiro 14, 2018

IMORAL É DESISTIR, MESMO QUE SEJAM MONSTROS OS OPOSITORES


Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia (John Lennon)

O Trabalho e o Capital permanecem teimosamente atados por um vínculo rixoso. A eruptiva (e mantida) pirraça do Trabalho amofina o Capital e, grotescamente, muitos dos arrivistas que nele pesticam. O Capital assim vive e tonifica-se. Esses outros, arranjistas de marca, penosamente remanescem sabujando a astuciosa distinção. O Capital, ao contrário do que se pensa, não exige só lucros. Precisa e inquieta-se por mais. Redesenhar a sociedade, concentrar poderes e subordinar recursos e capacitações. A responsabilidade ética (e moral) racionaliza-se. Deste jeito, cede o seu encargo ao servilismo do empenho técnico. A razão instrumental, com permissão, decreta livre em desgraça da sadia empatia humana. Esta, fatal e socialmente desacreditada como convêm ao agiotar do absurdo ideológico. O capitalismo, e o tal Sistema que o calça, captura a científica racionalização destes tempos modernos. Invade o campo das ideias fazendo do racional económico o cálculo arguto de todo o discernimento político. Abrangendo até a conveniente e injuntiva produção social da indiferença moral. É neste cenário que a rixa se impõe substanciar e prosseguir. A porra dos ajustamentos não pode foder sempre os mesmos. Esses mesmos que são, afinal, o Trabalho.

sábado, janeiro 13, 2018

A BANALIDADE DA INJUSTIÇA


Um mundo injusto acostuma a injustiça. Esta faz-se normal e impessoal. A qualidade humana hospeda o mal que a alenta e o cruel que com ela se articula. A moral já não atrai e o abuso da lei justa aproveita o vazio indefeso. Desperta-se e espalham-se significações nas remoinhadas consciências. Talvez não para a maldade ou para a estupidez. Certo sim para tornar inábil o pensar. E chega. É o bastante para cultivar a desnaturada e necessária banalidade. Com o tempo, viciante tanto quanto possível.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

ENLEAR A VIDA NO CRIVO HUMANO DO DIVINO


imagesApercebo-me de Deus nos arrimos que ainda hoje encontro suspensos na minha memória. Se os acho, seguramente não fui ainda capaz de lhes atribuir o destino crítico acertado. Por primordialidade, a inteligência e o sentimento sempre se conciliam. Ainda assim, em situações de premência, por vezes, se apresentam desavindos. As ideias embora se mostrem razoavelmente claras, as significações perturbam-se. Não só pelo que é dado, mas sim pela sua filiação agregada em memórias e experiências então recuperadas.

Espiritualidade e religiosidade não sendo digressivas, são abstrações dissemelhantes. Ambas procuram o que se busca encontrar para além da inteligência humana. Distinguem-se pelo argumento da liberdade e da responsabilidade que aceitam no caminho de si e da relação com o Outro e com o Mundo. O místico apresenta-se-me embaraçosamente esotérico. Sobretudo, desacompanhado da materialidade ética dos valores que todo e qualquer “conduzir-se” exige. Assim sendo, aproximando-me de Leloup, Deus, se é ou não, uma hipótese inútil, a ele (Leloup) me associo. Partilho com ele a ideia desse Deus ausente face aos acintosos sofrimentos, injustiças e maldades que a História transmite e nela permanecem.

Insculpido, em tempo de iniciação, em sintaxes ficcionais de domesticação judaico-cristã, não me foi fácil afastar dessa ensinada proveniência. Os representantes fáticos desse Deus que revivo, submetendo-se ao beato fundamento, amiudadamente se me revelaram nefastos á realização plena do humano. Assim, fui-me afastando desse caminho, numa viagem sem esse Deus mas com os homens, virtuosos, comuns ou mesmo desalmados. Contudo, todos eles desigualmente imperfeitos, sempre imperfeitos. Com eles, escolhi palmilhar os roteiros de uma outra humanidade. Cada um à sua maneira, me oferecem e concedem as suas experiências e as suas dores. Em comum, não se busca a aquietação à sombra segura de um qualquer preceito religioso.

Certo, certo, é que aprendi sempre mais com a fragilidade do desalento humano do que com a convicta e ínclita pregação. A espiritualidade, sendo inerente ao ser humano, assim se vai enriquecendo na busca dolorosa de sentidos de Vida. Pertencer a algum lugar, estar com outros, partilhar autenticidades, dispensa dogmas e paradigmas que suscitem e amamentem culpabilidades. Aqui, a imperfeição não serve de justificação mas sim de desafio, pessoal, moral, social e existencial. A espiritualidade está, estou convicto, para lá das religiosidades e das religiões. Independentemente das experiências de felicidade para os que acreditam e creem na recompensa divina.

terça-feira, dezembro 26, 2017

O ÓNUS DO EMBARAÇO

As crises têm sempre um futuro. Promissoras ou ruins, de acordo como as adotamos. Sendo incertas, são certamente mudança. Possibilidades de alcance ou de queda. Assim sendo, crise é encruzilhada. Exige escolhas, mesmo que as hesitações entrelacem os caminhos. Por aqui ou por ali? A vida não pára e a história cumpre-se. Que rota tomamos? Quem escolhe? Quem decide? Nunca os outros. Logo, tentemos, nós mesmos.

domingo, dezembro 24, 2017

A "IDEOLOGIA DO AMOR" EMPACOTADA PELO TALENTO CONSUMISTA


Moita Flores, escreveu. Um texto divino, embora implacável. Eu sei, eu sei que esta simples e banal verdade das prendas natalícias amofina muitas e boas pessoas. Ainda assim, não deixo de desejar a todos, mesmo aos aborrecidos pela dureza do texto, que tenham as suas "prendas felizes". Porém, as prendas que desejo não as encontrarei, certamente, nesta data de um culto de "poeira efémera", desde há muito, dissoluto pelo selvagem consumismo.

Venham-me os genuínos e humanos afetos. Não aqueles outros umbigados que vivem de abstrações acolchoados de egotismo e filáucia. Aconteçam-me, sim, sociabilidades singularizadas pela disponibilidade sincera de abertura e autenticidade. Dispenso a tentativa de comunicar onde a partilha do comum não se faz busca, vínculo e amizade. Não aceito "ver-e-sentir-me" um ser meramente vegetativo, parte tola de um ritual e contrafeito aparato natalício. Sem este espírito, nem esta exigente verdade, duvido que possa existir O NATAL. Apenas se me cumprirá mais um falto e árido natal.

domingo, dezembro 17, 2017

A FITCH, AS NOTAÇÕES E A RELIGIÃO ECONÓMICA


Estar informado de muitas coisas não se faz por si um exercício habilitado de inteligência da razão e da ética. Assim e sempre, o meritório saber vasto e variado não vai à fundura do verdadeiro conhecimento. Fica-se, então e repetidamente, pelo verniz narrativo da contingência do mero acontecer. Quantas vezes, o mundo das representações se ergue, assim, assente nesta imediatez tecida de dados primários de consciência. Ou seja, através deste imaterial sem história e circunstâncias, do qual se procura reputar a abstração e se parteja o diminuído elemento empírico. Neste quadro interpretativo, e apoiando-me livremente em José Barata-Moura, diria que é nesta cartola de fundo falso que se procura, então, sacar os coelhos especulativos das razões convenientemente explicativas. Dessa arte, então entretidos e abstraídos, se vai caminhando, porventura, sem saber ao certo o caminho que se caminha.

sábado, dezembro 16, 2017

O ANTES E O DEPOIS DO “MAS”


O “mas” governa em si numerosos significados. Pode valer como socorro de uma ideia, acudir a uma relação com o já afirmado, ou mesmo, apenas avivar um destacado sentido. Ou, maliciosamente ainda, interessa aqui destacar, uma latente oposição. Acolher que se está de acordo, mas … significa, através deste subtérreo desmentido, que o essencial está por vir. Neste tempo, em que a busca da genuína tranquilidade se mostra custosa, este “mas” argumentativo é bem mais profundo do que o acordo antes antecipado. É o “mas” que comunica o que não tivemos coragem de tornar preciso e que, assim, nos afasta da então inicial e simpática sintonia abraçada. É o tal “mas” que evita, porventura, o doloroso trair último de sensações, a triste morte em vida e em lume brando, como ainda protege a sobrevivência das possibilidades de gozo rudemente domesticadas. No fundo, é aquele “mas” que nos faz ainda desejar e sonhar com um tempo menos castrador, mais autêntico e menos frustrante. Ou seja, um amanhã em que o princípio do prazer seja humanamente capaz, enfim, de educar e civilizar o atual e capturado princípio da realidade.

domingo, dezembro 10, 2017

OS OUTROS, E AS HISTÓRIAS QUE DELES RECRIAMOS


As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos, diz-nos Shakespeare


O subterfúgio da invocada natureza de vida interior é um artificio enganoso. Pior, comodamente dissuasivo, e para o próprio, por vezes, paradoxalmente impiedoso. A vida interior não é uma coisa, um íntimo em si. A vida interior existe, sim, se bem que na presença dos seus factos que se cravam no leito dramático de um real amiudadamente apoucado. Não obstante, quando isolados do seu lugar concreto, tais factos se tornam engodos míticos, pois esburgados e desnaturados de si mesmos. Viver no íntimo de nós próprios é experienciar a verdade, acaso um coabitar interior, ainda que resultado de uma autenticidade de ecos particulares, nem sempre alcançáveis. É nesta dura experiência, embora sempre incerta, que se busca a entidade ontológica daquela vida íntima que, assim e imperfeitamente, se entrega com simplicidade a um falso interior amansado. Esta, intuitivamente sentida pelo próprio como dolorosa, talvez mesmo inconsciente por abrigo, se faz preguiçosa na diligência receosa de esbarrar com dependências e reciprocidades que não se intenciona aclarar.

Se pirutear a imaginação, diria que, ao escutar testemunhos de vida (diga-se, dos outros), se não se atender (e cuidar) ao concreto das histórias, imagina-se (ou romanceia-se) apenas tristes estórias de falsos duplos. Interpreta-se, assim, acudindo-se de uma significação que elege sinais que se calculam ser, afinal, a suposta vida concreta do visado. Quiçá possivelmente insidioso, eis o método que, com a pressa e a superficialidade convenientes, serve para sujamente recontar, recriando não as verdadeiras histórias, mas outras propositadamente viciadas. Sobre tal propositada tradução, sabendo-se de manifestas imprecisões, deliberadamente se ousa então deturpar, mentindo-se para outros salivarem e os babados assim convocados a fazerem tal tramoia medrar, se possível festivamente.

terça-feira, dezembro 05, 2017

HORÁRIO DO FIM


tio oscar2Porventura, sou sem me dar ao desafio de ser. O concreto das determinações que me decide, esconde-se-me. Amiúde, busco resgatar essa história que assim me foge. É nesse exercício de pensar o passado que a saudade, não raro, se experimenta. A circunstância, todavia, desespera pela alvura da nítida lembrança. A pessoalidade de afeto conservado, agita-se no interior das densas memórias esbatidas. A insistência teimosamente fracassada confirma-me de que pouco vale o meu interpelar racional da saudade. Acima de tudo, explicá-la, situá-la. A saudade existe. Sinto-a, e essa é a verdade que me resta da recôndita materialidade. O fardo torna-se, assim, mais pesado e difícil de suportar. De tal maneira fatigante se faz que a saudade se completa em pesadelo. O vigorante saudosismo, acolitado pela sobredeterminação de cabalísticas raízes, culpa-me então de fraqueza. Suponho-me, então, exilado nesse passado que não recupero, mas que o sinto na pele sensível do vivido.

Em jeito de sinopse, significo com Mia Couto, lembrando que o Fim tem sempre o seu horário. Quando chega a vez, morre-se de nada. Quando é o justo momento, morre-se de tudo. Porém, não é nunca, para nós, esse momento. Por isso, as memórias cá estão para suspender e embargar esse Fim. Com a saudade a musicalizar a inspiração dos achados que interessam. Por isso, sem saberes, continuarei a cruzar-me contigo. Até breve, tio.

sexta-feira, novembro 24, 2017

CONVENIENTEMENTE ENTRETIDOS

O politicamente correto desvia-se, mais do que se julga, das referências morais com que se anuncia. A ordem pragmática da conveniência prevalece antepondo-se à exigência moral da probidade assim adormecida. A favor de propostas, seguramente, de improváveis vantagens. Os costumes ajudam, os urdidos preceitos informam e as valias inspiradas desatam, como se espera, as raízes da matéria ética. As boas maneiras, então afloradas, interpelam as gentes através de usos tolos e desmedidos no encalço de volúveis expectativas. Sem se dar por isso, vagueia-se pelas ruelas caóticas da ideologia onde o óbvio se faz acerto impreciso e duvidoso. A conveniência transfigura-se, deste jeito silencioso, em esquema e medida do gesto social. Sem profundidade e densidade humana. A conveniência cumpre, então, livremente o seu oficio. Entretendo e entretecendo o templo e o tempo desse social.

domingo, novembro 19, 2017

ELOS DA EDUCAÇÃO, LIAMES DA VIDA


“O homem é sempre mais do que sabe de si mesmo. Não é o que é de uma vez para sempre: é caminho” (Karl Jaspers)

Queremos, afinal, ser gente, sonhando com inteirezas ou perfeições. Porém, com o tempo, moldamo-nos ao fracasso da sua improbabilidade. Daí, o possível fazer-se da vida e do futuro que resta. Desenganada a infactível perfetibilidade, o realizável descobre-se na entrega ao impulso do desafio. Apesar da deceção, acredita-se nas possibilidades do estreitado caminho ainda assim aberto. A educação é esse caminho, sempre diferente, do vai e vem entre o “si-mesmo” e o mundo. Logo, a nossa humana realização não escapa a esse mundo, nem prescinde desse caminho incomum. Ainda que este caminhar se nos afigure estranhamente rotineiro…

segunda-feira, novembro 13, 2017

O DESEJO DETERMINADO DE DURAR QUE SEMPRE PREVALECE

Ao João, amigo de longa data!

O passado é uma anterioridade sempre relembrável. As suas precedências alimentam as memórias do tempo presente. Estas, permeando o futuro, não decretam, porém, o Futuro. Neste porvir, pela esclarecida coragem, recuperam-se transvios recuados. As descontinuidades prestam-se, por isso, a tais reparações. Outras prioridades se revelam então. E a ordem a contrariar, na aparência precisa e arrastada, desnuda-se. Anuncia-se, afinal, atacável pela necessidade destemida do reparo. A vida, essa, enquanto ordem última, resiste e projeta-se nesse outro Futuro a inventar. Os impulsos, as motivações e as emoções, que outrora atraíram, mostram-se, pois, debilitados e inexprimíveis. Deste modo, a vontade traída, retira-se do beco sem saída do juízo gratuito. Os meios desobrigados dos seus fins, mostram-se pequenas artes para tão pobres propósitos. Sobrepõe-se, de agora em diante, o desejo determinado de durar que sempre prevalece. E o caminho, decerto, acontecerá desdobrado em múltiplos e merecidos possíveis.

quinta-feira, novembro 02, 2017

A ALQUIMIA DA LIBERDADE


A LIBERDADE é uma presença íntegra que nunca nos abandona. Bem como, não estranhamente, em circunstância alguma se nos impõe. A LIBERDADE anuncia-se, deste jeito, igual a si própria. Falamos da LIBERDADE. Sempre presente, confiável na sua discreta e irrevogável decência. Companhia diligente, solidária e generosa, apesar dos nossos continuados descuidos. Da LIBERDADE, a sua coragem assusta-nos. Desperta-nos inquietações, quando não inoportunos desconfortos. Embalados nos romantismos das nossas agitações, DELA não desmerecemos a sua solicitude. A pujança das urgências, provavelmente adiáveis ou mesmo inúteis, por si só, determinará o descaso em favor das vontades do momento. À LIBERDADE, embora atenta e presente, viramos-lhes então as costas. Não por receio de sucumbir à firmeza do seu axiomático olhar, mas por recusa da árdua tarefa que ELA, porventura, encorajaria. Sobra-nos, assim, a agitação dessa vida outra, uma vida animada talvez por profusas máscaras, farsas e preconceitos. Mesmo assim, a LIBERDADE, pedagógica, tolerante e paciente, não se retira. Observa-nos, sempre presente, certamente desolada, ante a dramatúrgica cena de cativeiro que representa, afinal, a nossa alegre, embora comovente condição de amansados. Mas ELA continua lá, mesmo ao nosso lado, aguardando paciente, talvez inconformada, por um qualquer apuro nosso.

domingo, outubro 29, 2017

JURO QUE NÃO VOU ESQUECER


A proximidade, o sentir dessa afabilidade que por vezes suscita e (desse causar) nos inspira, a um misterioso acordar humano do adormecido que permanece teimosamente na indignidade do nosso descuido.


Texto de António Lobo Antunes, Visão


domingo, outubro 22, 2017

A INVERDADE DA VERDADE DA EVIDÊNCIA


Com proximidades e sentimentos díspares, e proporcionalidades desiguais, o FOGO-CALAMIDADE é sempre uma evidência que desperta múltiplos sinais. Paradoxal e juntamente, a evidência atrai, em circunstâncias desta natureza, apaixonadas respostas invariavelmente precipitadas. Mais do que soluções, estas obscurecem as razões quanto a elaborações possíveis de leituras seriamente fundamentadas.

A liberdade de discorrer e ajuizar sobre a tragédia é inatacável, mas o abuso de pensamento e expressão, sobretudo no domínio da responsabilidade política, não pode deixar de ser reprovado pelos critérios de rigor e disciplina exigidos por uma conscienciosa e genuína vontade de empreender uma consequente e séria reflexão, obviamente aprofundada, consolidada e crítica.

Assim sendo, a evidência, enquanto tal, pode somar tolhimentos às dificuldades de compreensão das coisas. Através dela, corre-se o risco de aliciar e manipular a natural e humana superficialidade do visível, do emocional e do trágico. O imediatismo aí se enraíza, tornando a desconstrução dessa evidência uma exigência penosa e difícil. Por isso, é determinante avivar a vigilância à natureza das inquirições e aos arrebatados entendimentos daí decorrentes. Afinal de contas, estas poderão constituir não mais do que acrescências que ensarilham o PROBLEMA e não, de acordo com o que se pretende, alcançar as imperiosas indicações benéficas à cura que se busca.

O rigor e a disciplina no pensar, passe o juízo normativo, não pode ser descuidado e, muito menos, aviltado em momento algum. Mormente, nestes dias calamitosos marcados por reconhecidas causas de viciosas políticas que, ao longo do tempo, a vários governos responsabiliza. A incompreensão pode conduzir, assim, a um excesso de palavras frívolas, a trás das quais se acoberta o essencial do PROBLEMA e se omite a sua lamentável história. Eis, deste modo, um novo problema, aquele que sobrevém da inverdade que a verdade da evidência se arrisca a ocasionar e a fazer frutificar, desvanecendo assim o verdadeiro e lídimo PROBLEMA.

terça-feira, outubro 10, 2017

DECERTO, ILUDINDO O DESABRIGO DO TEMPO

Um tipo, quando escala a uma idade mais avançada, bem vivida e calejada, é natural que se vá dando, com o tempo, a um outro andamento. De quando em vez, a vivacidade que lhe remanesce resiste melhor às sacudidelas do imediatismo e a experiência dos refolgos, à peculiar condição, faz-se aprendizagem. Benfazeja por vezes, se bem que correntemente inquietante. Em tais casos, despertam-se inéditos acessos, alguns deles impremeditados, dificultando que os caminhos outrora demasiado espezinhados, e hoje não andarilhados, se façam penosos e soberanos vazios que unicamente a resignada memória dá conta de habitar. Assim sendo, e acompanhado por este acolhedor otimismo, vai-se rasgando este novo tempo resguardado, tanto quanto possível, das inevitáveis intempéries da vida.

É isso, creio eu. Não obstante, pergunto-me se acredito mesmo crer? Ou, pelo contrário, se calculo eu que o seu avesso abrigue mais verdade? Não sei. Releio o que aqui aprontei em jeito de texto, rabiscado e acomodado por palavras acotoveladas pela vontade de enxergar futuro. Afinal, o que de sincero admito no que acabo de escrever? Com efeito, não sei. Suspeito, isso sim, que o essencial eventualmente me tenha atraiçoado e escondido atrás das doces e simpáticas palavras, que essa vontade, mais do que eu, soube juntar. Se assim aconteceu, porventura, ainda bem. Por certo, sensatamente não quero agora sequer encontrar as inverdades que elas encobrem, as indignações que elas mascaram e os ressentimentos que nelas rodopiam. Por conseguinte, repito, não sei, não quero saber. Mais-quero, isso sim, deixar-me encantar melosamente pela exalação desse bálsamo que o otimismo, generosamente, desprende e espalha e eu, respirando-o, dele possa beneficiar.

sábado, outubro 07, 2017

SURPRESA, OU NEM TANTO?

A densidade do institucional demarca e orienta olhares, atenções e intenções. Descuida, por pecha, margens de vida por ele postergadas. As vozes das cercanias não são escutadas pela estranheza dos seus timbres e os seus silêncios fazem-se falsamente insignificantes na paisagem do quotidiano político

Fazer ciência política exige saber e talento para tal. Por manifesta desqualificação, analiso e procuro explicações, aliás persistentemente hesitantes, para os factos e acontecimentos políticos que observo. Por isso mesmo, neste breve texto comprometo-me a não transpor a raia desses ajuizados limites. Para mais, admitindo que o objeto a apreciar é uma realidade que, em concreto, confesso, a represento marcada por calorosa intuição. Assim, para além destas pouquidades, acresce também a natureza compósita do fenómeno observado. Logo, deste apenas isolarei um tópico que me atrai, e nesta contingência, de óbvia natureza empírica. Ou seja, o aspeto da confiança política, que creio relevante para uma leitura compreensiva, seguramente transversal do ponto de vista disciplinar, dos resultados eleitorais autárquicos em Peniche.

Pensar a eleição autárquica em Lisboa ou no Porto não é a mesma coisa que considerar a mesma eleição numa pequena cidade como Peniche. Tendo presente a ideia de confiança política, de imediato se me coloca, nestas circunstâncias, a possibilidade de a interrogar na sua natureza, materialidade e abstração. Como é sabido, o conceito de confiança acolhe coloridos distintos e, daí, qualificativos igualmente característicos que, paradoxalmente, apontam diferenças que estabelecem alteridade. Ao expressar confiança rodopiamos à volta de sentimentos, convicções, crenças, familiaridades e simpatias. A confiança política, não dispensando tais translações, convoca (e consente) mediações de múltiplas influências (institucionais, ideológicas ou outras) com consequências semânticas indomesticáveis. Assim sendo, as referências que deste modo a suportam vão-se ressignificando, no encalço de atingir, ao fim e ao cabo, o argumento síntese da fundada e alegada confiança.

Peniche, sendo, como se disse, uma pequena cidade, e como qualquer cidade pequena, é caracterizada por um tecido enraizado em dimensões comunitárias, de natureza diversa, ocasionador de proximidades e solidariedades, bem como de convicções partilhadas de valores e, naturalmente, de identificações que daí decorrem e que importa considerar. Sem pretensões de profundidade, e tendo em atenção as indagações acima referidas – natureza, materialidade e abstração da confiança política – é aceitável pensar que a matriz das mediações, neste contexto de maior proximidade/pessoalidade, experimenta o desafio de confinidades múltiplas que despistam, como se comprovou, lógicas de certo modo consolidadas ou previsíveis. A confiança política mescla-se, assim, com a confiança pessoal, e esta, com a calorosa simpatia que particulariza, acresce àquela outra o vigor que a testemunha e compele ao voto. A democracia não dispensa partidos, mas terá de aprender a viver (e a indagar-se) com estes saudáveis embaraços.

                                                                                                                                 

quinta-feira, setembro 14, 2017

SEM DRAMAS, EM OUTUBRO LÁ ESTAREI


O particular, vale o que vale. Porém, significa sempre. O certo do seu alcance é o da utilidade. Do cabimento, nem sempre. Por si, não é o bastante para dar à presunção um valor comum. Diferentes particulares competem. Da disputa desata o problemático e, daí, desponta o problema. Dado que as ocultações que do absoluto e da totalidade não trazem saída, alcançam crédito as ligações que objetivam o particular. Destas se faz o político, continuadamente em aberto. O desejo de fazer melhor envolve-se quase sempre com o incómodo da dúvida e o receio da confiança. Reconhecendo que não há acordos perfeitos e absolutos, a política renasce então da sua viva dissonância. Não há dramas, decorre da natureza tensional da democracia e esta respira da sua imperfeição. Votar por uma melhor democracia? Decerto que sim, acreditando que os resultados venham a ser os mais preferíveis. Sem essa confiança, de que vale votar? Em outubro lá estarei. Por uma melhor democracia, capaz de uma eficiente e justa política. Saberei eu optar? Decididamente, sim.

domingo, setembro 10, 2017

OS NÚMEROS NÃO MOLDAM SENTIMENTOS


A política, ao institucionalizar-se, desvia amiúde o seu centro de gravidade. A apressurada dinâmica, que advém da presteza combativa do seu (des)caminho, causa ingénitos efeitos nocivos. Destes, em particular, se afloram os prementes jogos (formalizados) de poder, assim como, o arrasto de sagacidades desperdiçadas ou, mesmo, desgraçadamente transviadas. Entre outros efeitos, sequelas na perda de compreensão crítica das dominações e das oposições, nesse comum que rasga a imensidade diversa dos cursos humanos, mormente, dos inscritos na lavra do social.

Não se declina aqui a necessidade de urgência na luta política. Quiçá, por essa imperativa razão, interessa sulcar e, acima de tudo, brigar por um conceito de política mais amplo, mesmo que o reconhecendo ontologicamente incontentável. Amanhando solos abandonados e circunstâncias muitas vezes desmerecidas, na certeza que a democratização do sistema político não pode realizar-se ante a indiferença da sua capilaridade e disseminação. Mais, na convicção profunda que a democratização das relações sociais constitui o medular onde o político se crava.

segunda-feira, setembro 04, 2017

INTIMATIVAS (ALEJANDRO JORODOWSKY)


Em entrevista ao Diário de Notícias de 4set2017

“Para sabermos o que é bem, temos de conhecer o mal. Todavia, a moda atual mais perigosa é a mentalidade dos preconceitos. Está na moda encher os cérebros das crianças com preconceitos. Vivemos dentro de uma prisão mental. As pessoas têm de se libertar de uma série de preconceitos”.

sexta-feira, setembro 01, 2017

CAMINHAR SEM CHEGAR A LADO NENHUM


Quem luta incansavelmente pelo seu apuramento, o fracasso espera-o. Certamente. Porém, o trágico não se passa tanto com este, mas com aquele outro que se aprecia cumprido no museu das memórias a caminho da paz do cemitério.

quarta-feira, agosto 23, 2017

ESTAREI ENGANADO?



Eis uma exposição, do meu ponto de vista, demasiada esquemática para a complexidade de valores nela inscritos e que muito prezo, tais como a partilha, o respeito e a verdade. Como diria Bragança de Miranda, na sua "Teoria da Cultura", o método pode conduzir a uma complacente tecnologização do pensamento. Se não vejamos; o que aconteceria se todos os presentes observassem o princípio aqui defendido? O improvável silêncio tornaria impraticável o próprio princípio e o cenário convertia-se num absurdo ridículo. Assim sendo, ante tal consequência original, o princípio revelar-se-ia contrafeito, porquanto não resistiria ao limite da sua possibilidade. Moral da história; saber ouvir é, ou deve ser, um valor de apreço e respeitabilidade pelo outro e pelo afazer que os une e, de modo algum, no meu entendimento ético, um desvalor perverso assente no cálculo, na necessidade, e sabe se lá, se na exploração da seriedade e da inteligência do Outro. Estarei enganado ou, de facto, em presença de um tolo chico espertismo da insolvente modernidade?

quinta-feira, agosto 17, 2017

PARA UM EXERCÍCIO MAIS ÍNTIMO

Retirado da entrevista de verão a Marcello Duarte Mathias (MDM), ao DN de hoje.

"Sim, sem querer cair numa espécie de psicanálise – a um freudismo de feira -, acho que todos temos dentro de nós uma pessoa com a qual dificilmente nos confrontamos. Julgo que todas as vidas são falhadas, mesmo aquelas que aparentemente foram conseguidas. Não falo dos domínios profissionais, mas do nosso foro íntimo, através das afetividades, dos encontros ou desencontros, das nossas ações, da diferença entre o sonho e a verdade, entre ambição e realidade… Somos todos uns falhados, uns mais do que outros, uns conseguem esconder isso melhor. Há no fundo de todos nós um recheio de obsessões íntimas e a vida é uma tentativa de nos resgatarmos dessas obsessões e dessa sensação de fracasso."

Convoco, assim, para uma recôndita e disponível reflexão, tendo por esteio esta assertiva de MDM, procurando deste modo despertar um diálogo genuíno e sincero com o sentir de cada uma das nossas verdades. A autenticidade por aqui passa…

quarta-feira, agosto 16, 2017

VERDADES E REVOLUÇÕES


20840965_2034023590069937_89526410580454051_nUm bom tema, pois há verdades (e Verdade) e também revoluções. No campo apenas das verdades, as primeiras distinguem-se da segunda na justa medida em que se colocam numa contextualidade que as determina e esclarece. A Verdade, essa outra, busca uma universalidade servindo-se decerto de uma abstração que supostamente a protege. Ao invés, as primeiras abusivamente forçam o engaste da universalidade numa particularidade que se intenta legitimar. A Verdade, essa outra imaterial, imagina-se também (por vezes) apresentar-se como uma totalidade, quiçá redutora, que tudo pensa (ou quer mesmo) arrogantemente abarcar. Neste quadro esquemático, sem pretensiosismos teóricos, assim nos vemos perante um entusiasmante imbróglio filosófico e epistemológico. Por isso, as verdades e a Verdade têm (e ganham) espaço para abraçar múltiplos planos e, igualmente, atuar em domínios diferentes de diferentes naturezas. Daí (e aí ), significados e sentidos multifacetados se fundam. Daí (e aí), as complexas revoluções se vão (ou não) realizando. Todavia, é minha forte convicção, todas elas sempre assentes nas verdades enraizadas em uma sentida e pessoal autenticidade (ou não) que nos escolta. Aqui reside, suponho eu, o eixo impulsivo da busca corajosa das nossas pequenas verdades a caminho de uma Verdade teimosamente esquiva, se bem que, nunca se sabe, potencial e existencialmente revolucionária.


sexta-feira, agosto 04, 2017

A SEDUÇÃO PREDADORA NA LÓGICA DA MILITÂNCIA (A)POLÌTICA


A retórica política porta consigo, amiudadas vezes, algumas despudoradas emboscadas. Os conhecidos e perversos efeitos destas, levam-me a reconhecer a sua espantosa eficácia. Se bem que, e é bom lembrar para o foco deste texto, o hábil uso dos seus preceitos faz-se competência porque as suas vítimas não enxergam ou aceitam o logro. Por que dele não querem saber ou, pior ainda, ao desmenti-lo prontamente, se apresentam comprazidos na sua doce ignorância. Talvez por comodidade ou, certamente, por volúvel presteza, quando não, por arrogância da própria (in)suficiência. O que me é particularmente irritante não é o que essa gente vai ou não daí obter. O que me azucrina, isso sim, é que essa gente não tolera os outros, sobretudo os incómodos espíritos críticos. Melhor, o que de facto me incomoda é a ostensiva incomplacência dessa gente com aqueles que questionam, que ousam ir além das palavras, que se atrevem a duvidar das promissões ou que, tão simplesmente, se afoitam à hermenêutica das peripécias.

E por quê a minha indignação? Por que a aparente e enganosa tranquilidade dessa gente, quando sobressaltada, e junto, a insolência que a escolta se percebe desmoralizada, o rechaço se denuncia desproporcionado, reagindo ambas em uníssono e a uma só voz em defesa de um eu tolamente narcísico. Assim, nesse derradeiro momento de inescapável fragilidade, a verdade vem ao de cima, a adulação ao discurso sedutor dos predadores, na contingência, nervosamente se sobrestima e o efeito traiçoeiro da cilada, entretanto aparelhada, cresce engajada no triste método do enxovalho argumentativo, a favor de uma silenciosa, mas calculada neutralização do pensar que se anuncia crítico. Neste chamamento ao diálogo com o campo psicanalítico, talvez se possa desobscurecer – é apenas um contributo – um dos traços identitários dessa gente maldizente e perseverante que abomina o que não sabe, ou que não lhe importa saber, e que dessa pouquidade faz do bota-abaixo, desse ao alcance da mão, a patética militância do seu martirizante mal-estar.

terça-feira, julho 25, 2017

O CANIBALISMO VAGUEIA POR PEDRÓGÃO


Reitera-se que a nossa identidade de ser português balouça entre várias e contrastantes particularidades. O nosso carácter saudoso, embora marcado pela convicção messiânica, facilmente resvala para a inveja mesquinha ou a vaidade justiceira. O sermos anunciados por uma religiosidade caridosa e, apesar disso, esta se tornar, no acometimento pessoal, paradoxal na sua generosidade e solidariedade. Gente que se diz fadada a uma infinda docilidade e, todavia, ser dada à ousada imaginação poética e ao sequente sonho criativo. Enfim, talvez um povo desaconchegado na sua identitária duplicidade de ser e não ser, desejando estar onde não está.

Quem sabe, não sejam estas, nossas e reafirmadas características, marcas inscritas, não apenas em nós, mas na natureza evolutiva do humano que o Homem tece como fronteiras sentenciadas e naturais. O impulsivo algoritmo dessa relação dissonante da sensibilidade, da emocionalidade e do pensamento seja, assim, insubordinado aos limites geográficos e culturais. Daí, considerar provavelmente que é neste terreno escorregadio, ambivalente e naturalizado, que o exercício interesseiro da política se faz, dando origem ao canibalismo ecuménico que a destrói na sua dignidade e equilibrada legitimidade. Pedrógão e o entender das listas das vítimas consubstanciam, na minha opinião, a expressão persuasiva de um conflito político que dessa androfagia é padrão. Lamentavelmente, aquilo que se impunha nobre e ético presta-se a uma reles e desumana pequenez no zénite da tagarelice política. Infelizmente é o que temos, em Pedrogão e não só ...


segunda-feira, julho 17, 2017

O PSD E A COMPULSÃO DE UM PASSOS À ESTAFADA REPETIÇÃO


Assiste-se, presumo eu, a uma sequela traumática neste PSD, excitada por um triste e deprimido Passos Coelho, ainda fixado à marca de uma suposta e inconsequente vitória eleitoral, provável razão de ser desta estendida e gritante experiência do trauma. O seu discurso repetitivo, enfezado e cindido, não atina com qualquer rota de inscrição na teia, aliás consensual, de representações agora aceites face à atual realidade do país. E o que não se representa emerge sempre, e de um modo aparentemente novo, através ilimitadas e compulsivas repetições, diz a ciência psicanalítica. Encarcerado assim no seu trauma, o PSD ou o Passos no PSD, o passado não passa, a história não se move e o presente (do PSD ou do Passos) nela se vai esperneando por asfixia. Permita-se-me um recomendável palpite; lutar contra um luto, fazer o luto, não é enfrentar o esquecimento. É antes um corajoso exercitar da liberdade. É uma árdua faina de nos libertarmos das (pre)disposições que nos aprisionam aos lugares sombrios da infecunda melancolia.

quinta-feira, julho 13, 2017

CASOS E ACASOS NA GEOGRAFIA DA VIDA


Vivência, experiência; o que pode (des)juntar estes conceitos? Confesso que a ideia de vivenciar era, por mim, apressadamente acomodada no solo exausto dos acasos. Por sua vez, experimentar revelava-se-me caminho e percurso a fazer. A vivência era, assim, mais marcada pela inércia do momento, a experiência mais pelo dinamismo do caso, do empreender. Hoje, cuido mais em reunir e não em afastar as duas aperceções. O vínculo resistente da subjetividade está, em ambas, sempre presente. Deste jeito, a experiência decorrida assiste à hospedagem da vivência, e esta, por sua vez, particulariza sulcos na futuridade própria da experiência. Ambas vivem acasalados por uma dupla dependência; a da fluidez pulsional sempre diligente e a da história de vida que nos reconhece. Como separá-las no seu movimento comum? Para nos desobrigar da primeira e podermos afirmar a segunda? Não sei, mas é humanamente possível.


segunda-feira, julho 10, 2017

SABER CUIDAR DA INDIFERENÇA


Vive-se um tempo de insólita feira, onde a ambição, acima de tudo, mercadeja controversos desejos, desdobrados estes na promessa desmedida e abundante de imaginados, e quiçá, fúteis e excitantes prazeres. Daí que a nossa relação com esse atiçado mundo voluptuoso se faça emocionalmente atribulado. Porém, insatisfeitos tais intentos, os alentados proveitos esvaecidos esculpem-se em tristes frustrações ou em intensos desgostos. Enquanto a frustração o tempo cura, o desgosto apodera-se das pessoas. Neste, os incautos, deleitando-se, deixam-se entregar a continuados e reiterados gozos entretanto passados, contudo definitivamente já submersos. Daí que, dei comigo a ponderar, se não vale a pena cuidar da indiferença, procurando escapar, através dela, a inúteis desilusões e, sobretudo, a desgostos que tanto nos castigam. Ou melhor, no uso quotidiano comum, cuidar da indiferença, aprendendo a fazer dela uma qualidade e não, de todo, uma mera apatia mesquinha ou, mais errado ainda, praticar com ela uma selvática e familiar insensibilidade.

sábado, julho 08, 2017

ESTRANHEZAS


Não me revivem deuses, santos ou ídolos de infância. Na escola, na igreja, e mesmo na família, retrataram-me uns tantos. Alguns deles, presentes demais em explanações fatigantes de estórias longínquas. Outros, poucos, mais avizinhados, carrearam uma outra vitalidade, na verdade, mais intimativos ao meu impressionável imaginário. Os retratos destes, em película, ofereciam proximidade, as estampas de outrora daqueles, apenas aparências misteriosas e improváveis. Assim, se porventura os tive, a deslembrança confirma que eles não resistiram ao passar dos tempos. Em definitivo, não habitam em mim heróis provindos da minha infância.

Mais tarde, no tempo adolescente, relevei algumas criaturas. Ainda assim, não muitas. Algumas que me destinaram marcas cinzeladoras do que tenho vindo a ser. Outras, que se me afigurando provocantes, e sobretudo intrigantes, delas conservei vestígios. Melhor, uma memória adiada, embora fecunda na sua permanecente e excitante estranheza. Quando a generalidade das pessoas me fala dos seus heróis e ídolos, não deixo de me sentir órfão desse comum partilhado. Interrogando-me, apesar de respostas presumíveis, não choro esse interpelante desabrigo. Talvez por isso, o culto aos heróis e notáveis não abalou, reconheço, a minha abaladiça emoção. Talvez por isso, não vicejei um qualquer instinto de rebanho. Talvez por isso, me sinta hoje um “velhote” tranquilo, cadenciado pela sua paradoxal inconformidade.

sexta-feira, julho 07, 2017

ORA PORRA!


Poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), que dedico como tributo (em particular) ao CM, o diário mais vendido neste país, e que tanto tem contribuído para a proliferação devastadora da ESTUPIDEZ


Ora porra!

Então a imprensa portuguesa é

que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos

que beber com os olhos?

Filhos da puta! Não, que nem

há puta que os parisse.


domingo, julho 02, 2017

NO BALEAL, O LUGAR DO BAR DA PRAIA


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Vivo um tempo que, sendo decurso do Tempo, é também um certo modo de estar (ou de ser), seguramente demudado. Suponho eu, que a vida é assim mesmo. Creio que ela, a Vida, é uma corrente que resvala num aparente e naturalizado quotidiano, anunciando ao longo do seu tempo as marcas indeléveis de uma certa e inevitável marcha do próprio ser. Porventura, um contínuo que se esconde por trás de inesgotáveis descontinuidades, instruídas de invencíveis ressignificações, e em razão disso, de novas e inquietantes interpretações.

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Atendendo a uma voz íntima do dever, sinto-me obrigado a satisfazer uma dívida para com este lugar chamado BAR DA PRAIA, no BALEAL. Neste ambiente paisagístico (mas igualmente humano), aqui parcialmente retratado, vou criando uma reconfortante continuidade com o meu próprio passado, tanto quanto me é possível, pela vontade e autenticidade de um pensar que busca, insistentemente, libertar-se do tolhido e irremissível transato recalcado. Dessa salutar e urgente tarefa, tem-se em vista povoar a tempo o tempo de um presente, desejando que este me esperte a estribar uma sorte, quiçá um fugaz futuro, de uma bem-fadada produção. Assim sendo, ao BAR DA PRAIA, o meu reconhecimento pela sua agraciada hospitalidade.

sábado, junho 24, 2017

A SABEDORIA DA INDUÇÃO


Sei que persegues insistentemente a Verdade. Que a buscas caminhando trilhos duros e arrojados. Sei das tuas falhas e dos desencantos guardados na permanência da tua entrega. Quando te dizem sábio, de pronto a tua modéstia repudia tal afago. Sim, todos erramos, mas tu, de um modo esclarecido, como poucos, sabes talentosamente enjeitar o raciocínio do erro. Em particular, quando juntas á tua incerteza mais dúvidas à própria incerteza. És um sábio, enfim, do modo como despertas a opinião definitiva, nesse teu trabalho íntegro e árduo de te desprenderes das certezas, que a tua suspeita, torna incerta.


quarta-feira, junho 21, 2017

A FAMILIARIDADE DA LINGUAGEM E O DESCONCERTO POLÍTICO DE TORNAR O POBRE, UM BOM POBRE


Burgueses há muitos. Os que são porque o são. Outros, porque o cobiçam ser. Outros ainda, porque já os macaqueiam duvidando vir a ser. E, finalmente, a maioria, ou seja, os restantes pobres que se decidem burgueses. Os únicos tangíveis são os matrimoniados com o sistema, que neste vivem bem acolchoados e sabem, igualmente bem, porque razão nele habilmente logram permanecer. Todos os outros, particularizam-se pela natureza da sua ambição de ser, servindo-se de palavras, gestos e esgares grotescos, na qual a farsa, a mistificação, a hipocrisia e a própria imprevidência se caldeiam com a ensimesmada ignorância ou, pior ainda, com o cabal arroubamento de espírito.

Porém, existem Outros. Os pobres, os verdadeiros pobres, os assistidos, aqueles que não têm sequer ensejo para fantasiar e, por isso, atassalham a possibilidade de mitigar a realidade, macaqueando ou cobiçando sonsos e ociosos paliativos. Então, como reconhecer e discernir, não propriamente para surpreender os referidos originais, farsantes ou otários, mas sim o discurso que a todos estas figuras une? Quem é essa gente? Eis alguns sinais que emergem das raízes, relações e entrelaçados circunstanciais dos seus cerceamentos:

domingo, junho 18, 2017

AS UNHAS-DE-FOME DO LUCRO PANÇUDO


Será que alguém de bom senso contradita a ideia de que o Consumo há muito se descasou das verdadeiras necessidades das pessoas, viandando pela intemperança do dispensável ou pelas apatetadas passarelas do Simbólico? Eis um ruído sibilante que julgo salubre lembrar como óbvio; o abrir de mão das rendas com que o concupiscente Lucro avassala a Publicidade conivente em perda do Salário que o serve. Aliás, estrupido esse, que num mundo sem fronteiras, a Besta Globalizada faz ouvir enquanto seu santo e bendito Lugar. Neste, Ela forja mercados, inventa engrenagens e conforma ficções prestáveis à epidemia que sufoca o Humano Futuro. Um futuro, que no concreto, é tão-só um ensejo aguardado, cercado por uma avivada fadiga grifada no paradoxo da recusada descrença. Desta alogia, sobra então a íntegra razão da Esperança do (e no) Humano, donde medra a Convicção que alenta a faina do Resistir.

sexta-feira, junho 16, 2017

O SOFRIDO LABOR DA AUTENTICIDADE


Como é penoso sacudir o passado. Um passado que afinal não passa. Sempre presente, desvela uma sobra de afetos que me amarga. As palavras úteis escondem-se por trás desse mudo silêncio que me castiga. O meu eu inquieta-me e o espelho em que me procuro descobrir não se cansa de testemunhar a minha culpa. Assim, a singularidade, que laboriosamente busco, parece esgotar-se nessa briga infinda com o avesso mundo das normas e dos seus medidores. O caminho e o sentido da autenticidade, desse modo, tornam-se compromisso, dívida para com a dignidade, uma viagem sem dúvida incerta e ousada. No seu fundo, uma aventura humana que não posso, nem devo deixar de tentar. Sempre e com determinação. Não há volta a dar.

quinta-feira, junho 15, 2017

ILUSÃO OU PESADELO?


A ordem mercantilizada, hoje instituída e severamente estabelecida, acomoda-se a uma dinâmica progressiva de desigualdades, inscrevendo-as em largos e múltiplos campos de natureza muito diversa. Não conhecemos os confins deste açodamento, mas vivemos e sentimos já o seu violento ritmo. Saber se as classes sociais, consequência dessas desigualdades, existem e quais as suas fronteiras, constituem hoje vertentes analíticas de merecimento relativo. A expansão e o desdobramento do todo das desigualdades tornam, aquelas, seguramente subordinadas nos seus rumos e alcance. Com a atual evolução da Inteligência Artificial e do desenvolvimento da Biotecnologia, sem demora se perspetiva um outro cenário, ou seja, o da transmudação de natureza das próprias desigualdades. A tradicional e primordial natureza económica das desigualdades será, desta feita, reconcentrada pelo biológico. A partir daí, deixamos de falar de classes sociais e passamos a discorrer, com maior rigor e pertinência, sobre castas biológicas. Assim sendo, nesse tempo, certamente se urdirá e sintetizará a mais inquietante e desalmada doença da humanidade futura. Será?

sexta-feira, junho 09, 2017

SEI APENAS QUE POR AÍ NÃO VOU


Circunstância pode sugerir mera particularidade, condição ou mera qualidade determinante. Contudo, pode também instituir-se como causa, desejo ou motivação incitante ao comprometimento. Ou seja, uma circunstância que se faz ocasião e, não raras vezes, se torna acontecimento, já que força à preferência, ou mesmo, impõe a opção.

Claude Roy, no seu livro O homem em questão, anota no seu texto introdutório, duas ideias que desde 1972 – cumpria eu o serviço militar em Moçambique – eternizei no meu espírito.

A grande questão metafísica da vida quotidiana é a dos encontros. Os seres são inúmeros, mas apenas conheceremos alguns deles.

Mais à frente, acrescentava uma outra que abrilhantava e aclarava a primeira.

Viver nem sempre é escolher o que se conhece, mas é sempre escolher o que se recusa reconhecer.

Ao longo da vida, e nas mais diversas circunstâncias, a síntese destas simples intuições facultaram-me prezar (e dispor) o (do) argumento da recusa, mesmo quando confrontado com o incerto caminho a tomar. A recusa de um caminho tornou-se, nestes hipotéticos cenários, uma confiante certeza que me espicaça o risco de jornadear por veredas desconhecidas e até imprecisas. Apurei, apesar das dificuldades, que o exercício do Não, convicto e fundado, pode-se transfigurar num horizonte impensado de possibilidades e oportunidades. Diferentes, provável e naturalmente, e decerto bem mais benéficas para a Vida.


quinta-feira, junho 08, 2017

OS LUGARES DA VERDADE


Exausto, onde busco os lugares da verdade?

Nos mitos quando a razão me confessa a sua falta?

Nas imagens junto dos vazios do representável?

Escalando o céu das transcendências,

repousando no aconchego das suas metafísicas?

Ou, entre outras artes ilusórias do entendimento?


Apenas creio que esse lugar está ao alcance da coragem,

algures no concreto da vida,

entre o que sou e o que ainda cuido ser.


terça-feira, junho 06, 2017

CHEGOU O TEMPO DAS VERDADES INCONVENIENTES. E A CORAGEM?


Abrolhado eu nas entranhas de um tosco tempo de ignorância, aí duramente devassado pela presença autoritária da crendice e do medo, estremecendo com os decididos assertos de escusos confessores (aqueles de sotaina e outros de diferentes batinas) ou, apenas mesmo, tristemente intimidado com os seus circunspectos, embora ávidos e abelhudos movimentos, sendo esse um passado distante, apresenta-se-me ainda hoje, esse tempo, um tempo de doídas sobras de infindáveis e múltiplas memórias, se bem que algumas de apreciáveis experiências, perduráveis conquistas e, quiçá, muitas outras de lamentáveis impulsos ocasionais.

Recordo ainda, quando fora de portas, digressoando em tempo de férias pelas profundezas da rusticidade das nossas terras e aldeias, o mundo parecendo-me outro, àquela memória incorporara-se afinal uma outra, sem dúvida mais meândrica, forjada na alma de um sentimento de liberdade traído, dado que laboriosamente a circunstancial alforria se me exibia mutilada. Reporto-me àquela outra biografia entontecida por misteriosas histórias repisadas de feitiços e de magias, de bruxas e de endireitas, levando-me a adolescer numa andança em que o permanecer, afinal, se fizera à custa de uma arte de viver em incessante e obstinado risco, porventura até mesmo ascético, na genuína e humana busca de me tornar sujeito da minha própria verdade.

Com o tempo, desfez-se esse tempo da crença assujeitada à conveniência espúria das verdades decididas, passando a escutar o vozear dos possíveis, que das sombras dos seus silêncios, neste meio-tempo, se faziam e ainda se fazem ouvir. Assim sendo, terá chegado finalmente o tempo das minhas verdades inconvenientes? Provavelmente. Tenha eu agora a coragem de as dizer, de as saber dizer e de as saber partilhar claramente e, se necessário, dizê-las com gentil e conveniente insolência, entregando-me à liberdade do compromisso urgente de cuidar de mim, sabendo cuidar do Outro e da dignidade (ontológica) da condição humana que a todos assiste.

sábado, junho 03, 2017

O CÃO, O GATO E O HOMEM


O cão e o gato, mesmo quando exultantes, não riem. A todo o momento, os humanos-bichos-do-mato podem levar o sorriso aos confins da gargalhada. Aqui habita uma estranha diferença digna de ser esgravatada. Desejavelmente, até ao fundo do seu tutano, não obstante as múltiplas teorias a respeito deste social afogo e dos seus peculiares roteiros espraiados sem limites. Para proveito humano e do humano, decerto interessa ousadamente insistir nele, no riso.

O riso é sempre bem-acolhido. Quando a liberdade cumpre a sua parte e o riso alegra o clima. Melhor ainda, se arruma o seu júbilo à serventia do pensar, escarnecendo sobre os ondulantes artifícios das certezas que ordenam as superfícies sonsas das nossas vidas. A sua autora ironia, com malícia encostada, habilmente apresentada, cumpre então aquele vital divertimento de nos devolver as coisas da vida de modo mais aprazível e saudável. Diante disto, enobrecer o riso com humanidade, não só traz vigor à Vida como encanta a sua condição (a Liberdade) e cuida do seu destino (o Outro).

domingo, maio 28, 2017

O MEU LIVRO QUER OUTRO LIVRO


Sessão do Meu Livro quer outro Livro, 25 de maio de 2017
Utopia - Poema para o amanhã, de Francisco Madureira.
Departamento de Professores e Educadores Aposentados e Departamento da Cultura do SPGL

O esquecimento é, na verdade sempre foi, uma forma de burlar a história. Esquecendo não se faz justiça aos que lutaram pelo acerto do seu movimento. Esquecendo, faz-se do desacerto a alegoria única e certa da história. Porém, ao invés, lembrando, rememorando o que não pode ser esquecido, abre-se as comportas da memória, salvam-se verdades abandonadas e aviva-se a chama da imaginação. Este texto do Xico Madureira, aqui presente e apresentado, sendo poesia, está para além da mera representação da realidade. Este texto, esta poesia, acima de tudo, torna-se um apelo à reflexão sobre a realidade, projetando-a no tempo desse futuro utópico que saberá merecer a liberdade que cuidará da dignidade da condição humana, como tão bem deixa transparecer o Xico Madureira neste seu “poema para o amanhã”.


sábado, maio 27, 2017

CAUTELA COM AS TOPADAS


Acredita-se que o português fantasia ser o que não é ou estar onde não está. Diz-se que assim vive suspenso no seu tempo histórico, adormecido na sua entranhada religiosidade, replicando-se incansavelmente nas regras e fórmulas do seu culto. Porém, sendo o português, diz-se também, certamente mais supersticioso do que devoto, a vida mostra que lhe sobra uma galhardia feita de talento inspirativo e de emoção lírica fácil, para se ligar a consentâneas circunstâncias, mais doídas ou entusiasmantes, donde se soerguem grotescas e teatrais erupções coletivas.

Errante e dilemático, esse português, usa máscaras e disfarces numerosas, jubila com rotineira leviandade, se bem que fácil (e amiudadamente) se estatele na merda. Descuidado (ou nem por isso), enleia os valores do sentimento e da comoção, cultuando sem lágrimas e com aguaçada destreza, o segredo do mexerico e, com a leveza do instintivo, agarra-se ao vício irresistível de profanar o próximo, mesmo que de um comparsa se trate. Por mim, duvido deste retrato identitário do português. Não obstante, se não me cuido, neles tropeçarei mais vezes do que agoiro.

terça-feira, maio 23, 2017

PARA UMA CULTURA DE DESOBEDIÊNCIA


Vezes sem conta, muitas mais do que se imagina, a obediência rasteja por trilhos de obscura lealdade ou continuidade. Os encorajamentos da obediência, servindo-se de secretos e perversos alicerces, promovem e respaldam, com a maior das indignidades, estranháveis (embora entranháveis)  autoridades. Estas, recorrendo a poderes intrigantes e a saberes por eles malsinados e utilizáveis, fatalmente excludentes, traçam com crueldade geométrica as suas fronteiras disciplinares, intransitáveis àquela liberdade desafiadora da emigração de criações implicantes.

Os condenados ao coagido exílio, nestas circunstâncias, negando o silêncio submisso, amantes da livre circulação da palavra, empenham-se (acertadamente) por pensar em voz alta, resistem pensando diferente e, sobretudo, com a presença ousada da coragem, não desistem de pensar. Ao mundo, os dogmáticos obedientes, acima de tudo estes, e não a triste escolta que a imbecilidade guarda, apenas mostram uma fachada, aquela codificada em sínteses ideológicas e morais trapaceiras, que bem escondem (nesses fundos) uma miserável história de exploração, dominação, hipocrisia e corrupção.

Em jeito de desfecho, diria que no fundo dos fundos, como vitalidade medular desta história, encontramos a ganância e os seus comoventes papagaios que rastejam à cata prostituída do restolho das migalhas. Assim sendo, garanto que o eixo utópico deste desalinhado contributo entrega-se mormente a amofinar o cantar desses psitacídeos e a infestar as suas gaiolas de padronização interesseira, sejam as douradas dos ladinos, sejam as piolhentas dos alegres e lerdaços parasitas. Como primeiro passo pedagógico, se me permitem, aconselho a estimar aquele olhar atiçado pela tentação de desobedecer, ou mais simplesmente, de dizer não e de corajosamente vociferar BASTA…

sábado, maio 20, 2017

MAIO 13, UM CONCENTRADO DE EMOÇÕES

 

No 13 de maio último, numa intrigante fúria (ou fuga) histórica, enrugada por súbita vinculação a um sublime fado lusitano, admitia-se que os portugueses se haveriam, afinal, de reencontrar com as suas raízes simbólicas e mitológicas, mediante as quais a faceta exaltante da jactância, finalmente, reprimiria a aferrada queda na persistente e deprimente saudade acamada, um tanto ontológica, da sua arcaica essência criadora de impérios entretanto abortada.

De manhã, todos, mesmo todos (cristãos, ateus e apáticos), confluiriam, mental e fisicamente, para esse beatificado lugar predestinado, onde os pastorinhos, não deixando de o ser, se converteriam em santos. De tarde, todos, mesmo todos, se regozijariam com os seus lábaros ou bandeiras, na circunstância professantes ou tinhosos, estes caçoando com o burlesco da treta, os outros comemorando  em gáudio e em trânsito o tetra, todavia, ambos, todos, em divina eucaristia canibalesca com o ondeante de agitação avermelhado.

À noite, muito provavelmente, e pelo contrário, o acerto apresentava-se menos esperançoso. Um rapazote, com uma deselegante aparência relaxada, barba em arrogante desalinho, cabelo estranhamente encapelado, à revelia dos mais reverenciados escantilhões prescritos, ousaria botar anomia artística na ordem fabril da exorbitância festivaleira.

Tudo aconteceu, tudo parece ter resultado, e como se presume saber, a transferência tem uma força psíquica poderosa, pois os egos marcadamente neuróticos, sobretudo em cenário de massas, tendem a albergar no seu eu esse mundo inteiro, embora incomum, quando este se compadece, acima de tudo, com uma desaconchegada dispneia existencial. Assim, deixar a libido descansar e as emoções flutuar livremente, manifesta-se em um útil oportuno. Certamente, assistirá ao nosso sentimento de sobrevivência e, nunca se sabe, de consolável refúgio.

domingo, maio 14, 2017

QUANDO A EMOÇÃO NÃO DISPENSA A LUCIDEZ



Não admiro as "vedetas" que se ensoberbecem. Este jovem, um agradável EXEMPLO, não de despojamento cristão e mole, mas de incitação declarativa, corajosa e transparente.

domingo, maio 07, 2017

DESTINEMO-NOS

 

Reacende o sensível que em ti adormece.
Derrota essa cobardia que te desalma.
Sacode os galhos que te tolhem o rasgo.
E liberta-te da teia das repetições.

Descobre o novo diante da tartamudez do mesmo.
Arrisca a corrente de ar que te refresca.
Despede-te do sofrimento que te suga.

Vai, vai por que sem coragem o futuro aperta.

terça-feira, abril 25, 2017

O TEMPO E AS SUAS DÚVIDAS

 

A(s) história(s), os discursos e os poderes, nos seus múltiplos entrelaçamentos, reiteradamente entretecem curtas verdades que acobertam o essencial da realidade. Pratica-se, então, o exercício de análise e de pensamento na busca compulsória de caminhos para surpreender o medular da Verdade mascarada. Posteriormente, indaga-se com atrevimento o saber desse exercer, correndo os riscos próprios de um tempo entrópico, acreditando no juízo disponível de uma consciência incertamente instruída. Os relatos então espiados, mesmo os mais inócuos, arrumam narrativas falhas que calam o segredo da mecânica do poder, abafam os seus movimentos e exorcizam as suas sequelas e responsabilidades. Eis as pequenas-grandes dúvidas de um tempo tão pessoal quanto imediato.

sábado, abril 01, 2017

UM ACORDO DE PRINCÍPIO QUE FINDA EM DESACORDO DE FACTO

 

17426174_1572119059483296_1613670877643978794_nPor muito que me esforce por escutar a voz da minha razão, o desconforto ofusca o seu ímpeto e confunde a sua linguagem. Entregue a mim próprio, o consolo possível parece persistir nesse aceno, um tanto patético, de apelar a algo que me ultrapassa e se esgueira. Embora distante, ou na fisionomia ausente, a minha condição de cidadão comum em tempo algum se despegou da sua dimensão política e, naturalmente, da sua legitimidade social e dever de intervenção. Após três mandatos consecutivos da CDU, independentemente do que se realizou ou não, se fez bem ou menos bem, e que a comunidade ajuizará nas próximas eleições, desponta uma incompatibilidade embaraçosa entre duas influentes personagens, socialmente reconhecidas, em particular no quadro político da CDU, que a meio de um percurso (im)provável e penoso, embora conseguido, se desavieram inusitadamente, sobretudo, para a generalidade do seu presumível eleitorado. O exercício político supõe ideias, exige projetos e, seguramente, trabalha por resultados. Não duvido das ideias e dos projetos que a ambos juntou. Suspeito, isso sim, que as consequências da rutura não tenham sido devidamente cuidadas e, permitam-me, acuradamente sopesadas. Consintam-me, pois então, a expressão pública deste meu penoso lamento.

domingo, março 05, 2017

O COMPROMISSO DE RECONHECER

 

BERTINO

 

A sua simplicidade, a sua firmeza, o seu saber, todo o seu conhecer e vontade de servir a comunidade, todas estas suas qualidades transformam-no num homem ímpar, que merece o meu reconhecimento público e, como tal, político.

domingo, fevereiro 26, 2017

VOTOS DE UM BOM CARNAVAL

 

Há gente que ao aparecer faz o possível de parecer o que não é, mas diligentemente mostra ser, por vezes, o que de todo não é. Outros há, que se empenham por aparecer, parecendo o que procuram denodadamente ser. Este é o quotidiano desigual de um tipo de carnaval multifacetado que o tempo de Carnaval desobriga, dissolvendo os diversos contrastes numa oportunidade comum de galhofa e onde a sadia ociosidade se espreguiça ante o esmero da distinção. O Carnaval é, deste modo, talvez o tempo único onde o poder de iludir escapa à prova da sinceridade e a hipocrisia, podendo existir, se acolhe na legitimidade da sua máscara risível. No Carnaval, o poder de iludir, ao desenvencilhar-se da maçadora perversidade do mau uso da liberdade de cada um, dá descanso à necessidade de agasalhar uma nudez interior embaraçosa. Aproveite-se o Carnaval ... para que o porvir do quotidiano possa lucrar com a venturosa folia.

domingo, fevereiro 19, 2017

ONDE SE METEM OS COBARDES APADRINHADOS?

 

E se o homem experienciasse o desrespeito com maior exigência? E se o sentimento daí resultante se revertesse em convicção político-moral? Ou melhor, se esse sentimento volvesse em estímulo motivacional de um ressarcir empenhado da sua dignidade e integralidade? Onde se iriam refugiar, com o rabinho bem entre as pernas, os oradores sagrados deste tempo selvático?

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

SEM PROFETISMOS OU MESSIANISMOS

 

Em tradução livre, recordo Boaventura Sousa Santos, sugerindo que os lugares não têm destino. Têm passado, presente e têm futuro. Ouso propor que é nesta marcha do tempo que a destinação se desenha, se alicerça e constrói. Porventura, a escora de uma identidade própria que, deste jeito, se vai assenhoreando do seu caminho, produto de vontades que se agregam e afluem crendo nas pessoas, na eficácia da perceção comunitária do inaceitável e no talento práxico do comum. Sem vaidades ou tartufices, a bem do futuro do Lugar e das suas gentes.

sábado, fevereiro 04, 2017

UM TESTEMUNHO APENAS

 

Bertino e RogérioNão sei o que dizer quando testemunho um abraço entre dois amigos, enlace no qual, naturalmente, a amizade experimenta o embaraço (sobremodo recompensador) em assinalar as suas próprias fronteiras. Como vos invejo, amigos. Desculpai este ciúme, aliás de um saudável egoísmo, quando presumo reconhecer uma amizade capaz de resistir às vicissitudes das múltiplas exigências, dos tempos e das experiências, nem sempre, certamente, condicentes. No fundo, uma amizade onde o conveniente não é a marca e o convincente alcança o seu lugar. Admirável amizade que os seus amigos, que sei não serem poucos, sabem que transcendem os próprios Henrique Bertino e Rogério Cação. Se bem que, nem sempre presente, dessa nobreza e dignidade sou uma perseverante testemunha. Agradecido aos dois. Muitas felicidades a ambos.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

UM CORPO AGITADO


O silêncio deste préstito fúnebre azeda-me. Definitivamente, já não dependo de mim. Desencaminhei a minha liberdade repetidamente, desprezando-a. Não vale a pena, nesta hora, o grito arrependido do abafado lamento. Ainda assim, a mudez dos marchantes teima em me perseguir, confirmando a cruciante subordinação. Detido no ataúde cerimonial, sinto bem o castigo merecido de não ter feito, afinal, um pouco mais. Pela minha liberdade, acompanhando outros nessa humana verdade. Por isso, sobre a pedra que me oculta abandono o seguinte epitáfio - “Aqui jaz um virtuoso e nobre medroso. Sacrificou a sua vida a ofertar bravura aos outros. Muitos deles, fracos e pobres de espírito”.

sábado, dezembro 24, 2016

UM TEMPO, O TEMPO DE NATAL

 

O tempo de Natal é um tempo plural que amadurece, tornando-se sempre, ao longo desse tempo diverso, uma inefável e, por vezes, insondável vivência. Da chaminé adornada pelos ansiosos sapatinhos, aos dias de hoje marcados pelas memórias da virtuosa credulidade. Permanecem, nesta caminhada, presenças consoladoras, e insistentes ausências, que inteiramente nos acarinham. Afinal, o tempo de Natal releva a espiritualidade que acontece com esse fatal desenhar da vida. Um humano e esquinado traçado de dor e de felicidade, esboçado pelo incessante afeto que alenta a Vida e tempera a vontade de a continuar a viver. É tempo de Natal.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O LEGADO DA INDIGNIDADE

 

A significante evolução das condições de vida, nas últimas décadas, é inegável. A narrativa histórica e social assim o reconhece e a memória dos mais provectos tal confirma. Agora, concordar esta corroboração com o desígnio ontológico da condição humana respalda em si um paralático equívoco. A lógica mercantilizada do desenvolvimento vem cavando um trágico fosso humano e social feito de desigualdades, injustiças e precariedades. O Trabalho disso se ressente e a Cidadania assim se inabilita. Isto posto, trabalhar a condição humana exige o estímulo do humano no Homem e, para tal, importa cuidar da qualidade das políticas e da democracia. Eis, na minha leitura, o essencial da advertência, aliás otimista, deixada por Carvalho da Silva na sua Conferência “O trabalho, A solidariedade Intergeracional, O tempo de reforma”, a 6 de dezembro, nas Caldas da Rainha (Delegação do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).

quarta-feira, novembro 30, 2016

RESGATAR A LIBERDADE DESSA VONTADE QUE NÃO NOS PERTENCE

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(Apresentação que fiz do livro, UTOPIA, PARA O AMANHÃ, de Francisco Coelho Madureira, ontem, na Livraria Letra Livre/Lisboa/Bairro Alto)

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Poderia, nesta circunstância embaraçosa, fazer aquele número de proferir umas breves palavras de improviso, com base num texto previamente escrito, seguramente bem arrumado nesta minha já apoucada memória e, assim, fingir um talento que realmente não disponho. No entanto, certo de que não se deixariam enganar, e muito menos nessa mentira cairia o meu amigo Xico Madureira, optei por este escrito – que vou acompanhar, confesso, por intranquilidade minha – procurando, prometo, proteger-vos da desagradável monotonia, bem como, e tanto quanto possível, fintar o lado enfastiante do formalismo.

Experimentando eu, uma habitual comodidade quando abrigado nesse mundo prosaico da linguagem do quotidiano, no instante do convite para aqui estar presente nesta função de me pronunciar sobre a obra, como é fácil de entender, senti-me na verdade desaconchegado quando pressenti a poesia a aproximar-se de mim, imprudentemente a me apadrinhar e, no limite, a me distinguir – evidentemente por amizade – para uma árdua incumbência de apresentação do trabalho, sublime e poético, como é o caso desta UTOPIA, PARA O AMANHÃ.

quinta-feira, novembro 17, 2016

ESCUTAR O CORAÇÃO DO VAZIO

 

Que coração é este? Decerto, um coração que ilumina o vazio na recusa de se consolidar no nada. Um coração que dá vida a esse vazio que se rebela, e revela, ante uma arredia existência. Afinal de contas, um coração que desperta a espessura de um vigor que ainda resta e que, assim sendo, traz consigo incitação e existência. Na sua obstinada verdade, um coração que faz com que esse experimentado e preciso vazio se torne, tão-só, um momento valoroso, síntese de muitos outros, quiçá dolorosos e magoados, e lhe oferece um sentido capaz de presença e, sobremodo, de vontade de resistir. Aliás, momento esse que vale pela negação do falso nada e se dispõe ao alívio, angustiado e decadente, desse desvio sem rosto. Um coração, em suma, que comunica instruído por vigorosas e vigilantes memórias e nos faz permanecer inteiros, provando que o vazio e o nada não são coisas semelhantes. Assim nos ensina a experiência dura, embora tranquila, desse vazio aclarado, capaz de nos exibir a vida sobrante que entrementes se esvaiu. Um coração, enfim, que nos resgata o nosso próprio rosto, nesta hora, sagaz e recompensado.